abril 02, 2013

(in)domada



Você dói em mim. Você me fere. Sinto você arder. Não quero que pare. Também não há cura sem você. Melhor sangrar do que viver sem as marcas de uma grande vida. Pareço calma nesta pele claríssima, mas também escondo as garras por trás de um olhar sereno. Me mostro rasa, mas sei que sou profunda. Sou forte para resistir a tua força. Sou leve para pesar sobre teu corpo. Escolho boas palavras, te desarmo com meus dedos. Os arranhões são também beijos. Abraços são armadilhas. Minha mão em tuas costas desenha meu pedido. Tuas mãos em minha cintura pontuam meu destino. Se te guio com o que pressinto, você altera o futuro. Você tira de mim o grito, eu dou para você também o riso. Entro em ebulição se você se aproxima. Tive que desaprender as manhas da minha fera. Busquei a liberdade para me dar para você.


Cáh Morandi

abril 01, 2013

repara


acho engraçada a forma que você 
fala das coisas e dos seus planos
como, despercebido, me coloca
em seus sonhos, nesse total
diz-não-diz que me ama
que escapa nas entrelinhas
dos seus gestos e seu olhar

é lindo como você me nega
e me observa sem perceber;
é lindo como você se entrega
e não repara eu me render.



Cáh Morandi

março 28, 2013

"Quero as janelas abrir para que o sol possa vir iluminar nosso amor..."

(Título: Janelas abertas, Tom Jobim e Vinícius de Moraes)



O amor seria somente mais uma palavra. Uma palavra como outra qualquer: cadeira, livros, horizonte ou paralelepípedo. Uma palavra perdida em um dicionário. Uma palavra imprecisa em uma canção. Uma palavra escrita numa placa no deserto. O amor poderia ser o deserto ou a canção, porque às vezes, nos dá uma espécie de sede, em outras, um carinho ao pé do ouvido.

Quem sabe o amor passasse despercebido, em silêncio, tão em calmaria que nem distraísse minha atenção das outras coisas bobas do mundo. Quem sabe o amor chegaria, como chegam correspondências de promoções, que a gente amassa e joga fora. Quem sabe o amor viesse como uma rosa entre as outras rosas em buquê, e olhando de cima, é tudo tão igual. Quem sabe fosse uma rua desconhecida, um creme para as mãos, um jeito de sorrir ou olhar, uma mania, um prato árabe, uma pizza, um peixe que vive só no Mar Egeu, uma marca de xampu ou de relógio, um sabor de suco, uma fruta. Embora para tudo, seja todo o sentido.

Poderia sim ser quase nada, se não tivesse sido tudo. Poderia não ter significância ou significado, senão fosse você. Senão fosse seu riso me chamando para dançar no meio do mundo, senão fosse seu nome se espalhar por todos os cantos dos meus pensamentos e os poros da minha pele, senão fosse o seu olhar na primeira vez que te vi, senão fosse seu ar de segurança, senão fosse sua simplicidade em falar. Se por um momento só, você não tivesse sido tão profundo. Se por um momento só, não tivesse sido você, teria sido tudo inútil, teria sido tão em vão.

O amor vem depois de você, e as palavras vem depois do amor. Tão clichê, tão bobo, quando a gente quer dizer que está apaixonada e sente tão amada a ponto de esquecer o resto do mundo. Tão tola nossa forma mais planejada para não ser amarrada pela paixão. Não vale nada toda razão quando o coração desperta.

O amor seria sim como qualquer palavra, se não fosse sua chegada.

Cáh Morandi