Primeiro você me aparece
e me mostra as coisas das quais, até ontem, eu não tinha medo. Eu acredito
nelas e, de repente, elas se tornam muito mais do que uma simples crença. Me
encoraja ao amor, retrocedo nos dedos. Vem, vende sonhos para nós, mas eu compro
só para mim. Vejo um futuro, te chamo por cima do muro da saudade, estico os
pés na esperança, me apoio na confiança, espero uma resposta do amor. Será que
é só medo a nossa distância? Eu fico aqui com a pergunta e também com a
resposta e eu as ofereço para você, como quem oferece um pedaço de vida. Você
as toca, mas não as abraça. Você as vê, mas não as retribui. Você não existe.
Primeiro eu desejei o amor, depois uma possibilidade, agora não desejo quase
nada. Eu continuo, então, preso a esses sonhos comprados, evaporando meu amor,
desistindo de uma vida para nós. Acho que é por esse poro que a esperança se
esvai.
Tenho mais silêncios do que segredos. Sou apenas uma resposta atrasada de alguém, a canção inapropriada da madrugada, o livro mais demorado de alguma estante. Sobre mim apenas o distante, o toque que não alcança, a muralha que divide. Ontem eu fui uma menina que fui roubada de sonhos, uma mulher que amadureceu das precipitações sobrepostas. Nem sempre a vida é justa, nem sempre nos devolve as respostas e passamos sendo apenas interrogações. Não tenho conversas interessantes, antes sou um poço de irrelevantes poemas. Tracei um caminho, mas caminhei por um desvio, sempre a própria beira. Não ofereço nada, do pó que vim, morrerei voando em poeira. O que deixarei saber sobre mim é que de alguma forma tenha amado a vida ou alguém, sem detalhes além. Uma mulher não diz quem escolheu para amar. Ela vive um amor a dois, a sós.


















